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Visões da Vida

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    Leviatã


    Todo interessado em evolução deveria ingerir uma dose extra de humildade antes de se arriscar a falar sobre a origem dos cetáceos, o grupo que inclui as baleias e os golfinhos. Afinal, o próprio Charles Darwin acabou passando vergonha quando tentou montar um cenário evolutivo para o surgimento desses bichos na primeira edição de seu clássico A Origem das Espécies. Darwin propôs que um urso nadando com a boca aberta para capturar insetos boiando n'água poderia ser um protótipo interessante de pré-baleia. O pobre naturalista foi tão ridicularizado por causa do chute – “zoado” talvez seja uma palavra melhor – que reformulou totalmente a frase nas edições seguintes do livro.

    Por sorte, aprendemos uma coisinha ou duas desde o fim do século 19. Embora Darwin tivesse uma capacidade quase sobrenatural para propor linhas de pesquisa à frente de seu tempo, ele não dispunha das ferramentas da biologia molecular, nem de alguns fósseis espetaculares descobertos dos anos 1980 para cá. Com essas novas pistas, a gênese das baleias perdeu muito da aura de mistério que tinha.

    Embora ainda pairem dúvidas sobre os momentos mais antigos do processo, contamos hoje com um registro quase ininterrupto de formas intermediárias – do nosso ponto de vista moderno, claro – entre as criaturas maravilhosamente transformadas pelo meio aquático de hoje e um grupo apenas ligeiramente esquisito de mamíferos terrestres de 50 milhões de anos atrás. Levando em conta as incertezas que ainda existem, convido-o, nobre leitor, a entender a essa jornada evolutiva de trás para frente: partindo dos cetáceos modernos para chegar aos mais primitivos.

    Mágica?
    O desafio imposto pelas baleias à biologia evolutiva tem a ver com o incrível conjunto de adaptações aquáticas do grupo. Graças a elementos como o sangue quente, a viviparidade (gestação dos filhotes no interior do corpo da mãe) e a produção de leite, seria impossível não classificar os cetáceos como mamíferos, mas é difícil imaginar formas de transição entre seus corpos de nadadores e qualquer bicho terrestre conhecido.

    No entanto, como dizia um finado cientista, “a evolução é mais esperta que você”. As antigas patas de trás das baleias e golfinhos desapareceram quase por completo nas espécies modernas, embora suas barbatanas dianteiras não passem de braços modificados. É nesse vão que entra o Basilosaurus, uma baleia esquisítissima que mais lembra uma serpente marinha e viveu no mar que recobria parte do Egito há uns 40 milhões de anos.

    Não há dúvidas de que o Basilosaurus era um cetáceo, mas a parte traseira de seu corpanzil era adornada por duas patinhas com menos de meio metro de comprimento. Levando em conta todo o resto da anatomia da criatura, é certo que elas jamais conseguiriam suportar seu peso fora d'água mas, de qualquer maneira, estavam inequivocamente lá. Em algum momento do passado remoto, as baleias tiveram patas de trás.

    Dádiva de Tétis
    Os sedimentos marinhos egípcios onde o leviatã em questão foi encontrado estão no meio do Deserto Ocidental egípcio, mas, como eu disse, um dia estiveram debaixo das águas do mar de Tétis. Essa massa de água salgada rasa, batizada em homenagem à deusa marinha (nereida) e mãe do herói Aquiles na mitologia grega, recobriu por milhões de anos várias áreas do Velho Mundo. Fazia todo o sentido procurar pistas ainda mais antigas em outros sedimentos do mar de Tétis.

    Vários paleontólogos seguiram essa trilha, e o resultado foi a descoberta de mais fósseis espetaculares, desta vez no Paquistão, batizados de Ambulocetus natans (algo como “baleia andante que nada”), que tem uns 50 milhões de anos de idade. Você pode ver a reconstrução do bicho na imagem que abre esta coluna. O maluco em relação ao Ambulocetus é que o bicho é quase uma versão mamífera dos crocodilos, com corpo longilíneo, bocarra alongada, olhos no alto da cabeça e narinas na pontinha do focinho. Seus dentes e ossos do ouvido deixam clara a relação com as baleias. A evidência oriunda do ouvido é crucial porque o aparato necessário para ouvir bem debaixo d'água é totalmente diferente do que funciona no ar.

    Tudo indica que o Ambulocetus, no entanto, não estava adaptado exatamente a ouvir debaixo d'água, mas a receber vibrações sonoras do chão a partir de sua mandíbula, como os crocodilos e jacarés modernos fazem. Isso levou os pesquisadores a propor que o bicho, exatamente como esses répteis, poderia ficar de tocaia à beira d'água até detectar essas vibrações. Depois, com sua cauda poderosa e pés que mais parecem remos, poderia nadar rapidamente até a presa incauta e abocanhá-la.

    O consenso entre os paleontólogos é que todas essas características eram uma pré-adaptação à vida aquática plena. Isso não quer dizer que Ambulocetus e companhia estivessem só “esperando” para virar baleias. Pelo contrário, sua anatomia estava adaptada às necessidades de curto prazo desses animais. Mas ela também facilitou que alguns de seus descendentes, por meio de novas mutações que cooptaram as adaptações antigas, tivessem sucesso em mergulhar cada vez mais fundo.

    A troco de quê?
    A pergunta que não quer calar, no entanto, é: que vantagem Maria levava? Por que um mamífero terrestre – muito provavelmente com cascos nas patas, e parente próximo dos ancestrais dos modernos hipopótamos – arriscar-se-ia nos sete mares?

    De novo, talvez esse seja o jeito errado de formular as coisas. Os seres vivos não colonizam novos nichos ecológicos com os olhos postos no futuro distante, e não têm a menor chance de influenciar conscientemente os próximos passos de sua linhagem. São alterações aleatórias em seu material genético, aliadas a oportunidades fortuitas no ambiente ao seu redor, que podem levá-los, passo a passo, a modificações que parecerão radicais caso vistas com o telescópio da paleontologia. Pequenas mudanças levam à sobrevivência da próxima geração no jogo da seleção natural; o acúmulo delas leva a coisas como o nascimento evolutivo das baleias.



    Pode ser que simples tocaias à beira d'água tenham empurrado os cetáceos para o meio líquido. Pode até ser que o contrário tenha acontecido: o Indohyus (veja imagem acima), um mamífero do tamanho de um cachorro descrito no ano passado, mostra elos anatômicos com outras baleias primitivas e ossos que lhe permitiam ficar submerso durante algum tempo. Seus descobridores propõem que ele fazia isso para escapar aos predadores, de forma que só mais tarde as pré-baleias teriam se adaptado à caça.

    Seja como for, o mistério sobre a origem dos cetáceos ainda deve manter os paleontólogos ocupados – e se divertindo à beça – durante um bom tempo.

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Reinaldo José Lopes

Bem-vindos a uma viagem pelos quase 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Este espaço é dedicado a explorar como a evolução forjou e ainda forja a variedade estonteante dos seres vivos, da mais modesta bactéria à complicada e fascinante linhagem humana. Meu nome é Reinaldo José Lopes, sou repórter da editoria de Ciência e Saúde do G1, e convido todos vocês a participarem dessa jornada imprevisível e maravilhosa.






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