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Evolução com a corda no pescoço
Quem costuma achar que os seres humanos são a melhor coisa que a evolução já produziu definitivamente nunca parou para pensar no sucesso que os dinossauros tiveram até um meteorito estragar tudo 66 milhões de anos atrás. Os bichos foram os animais terrestres dominantes do nosso planeta por nada menos que 150 milhões de anos, ou 25 vezes o tempo que passou desde que o primeiro macaco teve a idéia de andar com duas pernas. Até agora, muita gente achava que esse reinado gigantesco começou por um mero golpe de sorte, mas o paleontólogo Peter Ward diz ter descoberto o segredo do sucesso dos dinos: evoluir com a corda no pescoço, num mundo quase sem oxigênio.
A tese do pesquisador americano, que trabalha na Universidade de Washington, em Seattle, está no livro “Out of Thin Air” (algo como “a partir do ar rarefeito” ou “a partir do nada”), que acaba de chegar às livrarias gringas. Já seria uma idéia suficientemente audaciosa se fosse aplicada apenas aos dinossauros, mas Ward vai além. Ele se diz convencido de que sucessivas baixas no teor de oxigênio da atmosfera podem explicar todas as grandes mudanças na vida animal desde que ela surgiu, lá se vão uns 600 milhões de anos.
Ward, é bom lembrar, nunca foi homem de fugir de polêmica. Junto com o astrônomo Don Brownlee, ele também criou a chamada hipótese “Terra rara”, segundo a qual as condições físicas e astronômicas do nosso planetinha são tão incomuns que as chances de encontrarmos vida complexa (tipo gente, dinossauros e araucárias) fora dele são, digamos, pentelhesimalmente pequenas. Para todos os efeitos, estaríamos sós no Universo. A idéia deixou muito cientista por aí contrariado, por aparentemente insinuar que a Terra tem algo de especial no cenário cósmico.
Mas vamos voltar à tese “sufocar para evoluir” do livro “Out of Thin Air”. Ward diz que a ficha da falta de oxigênio como motor da evolução começou a cair quando ele leu relatos de alpinistas no topo do Everest. A montanha mais alta do mundo deixa qualquer ser humano sem fôlego, mas os aventureiros contavam ter visto bandos de gansos migratórios passarem voando por cima deles com o maior desplante.
O vôo das aves é uma das atividades mais exigentes do reino animal em termos respiratórios. E quem são os ancestrais diretos das aves modernas? Ninguém menos que os próprios dinos. “E se as aves tivessem vindo de uma época em que a própria superfície da Terra, no nível do mar, possuía uma atmosfera tão rarefeita quanto o topo do Everest?”, especula Ward.
O livro é uma tentativa de responder a essa e outras perguntas mapeando os níveis de oxigênio da atmosfera primitiva e traçando correlações entre eles e os vários grandes eventos da evolução animal. Para ser justo, o ponto de partida do raciocínio é bem pouco controverso: a vida complexa “bebe” oxigênio feito um carro bebe gasolina.
Só o precioso gás rende energia suficiente para sustentar os processos vitais de animais e plantas. Além disso, seu teor na atmosfera e nos oceanos variou doidamente desde que a Terra é Terra – de praticamente zero quando o planeta se formou há 4,5 bilhões de anos aos 21% de hoje, passando por cerca de 35% no Carbonífero, há 300 milhões de anos.
Ora, diante de uma variável tão importante quanto imprevisível, seria razoável esperar, argumenta Ward, que os seres vivos campeões de sobrevivência fossem os mais eficientes em capturar oxigênio do ar ou da água.
A vida animal teve sua primeira grande diversificação durante a chamada Explosão Cambriana, há uns 530 milhões de anos. Sabe-se lá o porquê, num período relativamente muito curto, todos os 30 e tantos tipos básicos de “design” animal, das simples esponjas aos sofisticados vertebrados, parecem emergir quase do zero nos oceanos. O mundo do Cambriano sofreu uma grande baixa no teor de oxigênio. Para Ward, os vários “designs” foram justamente respostas diferentes à necessidade de não sufocar.
Um exemplo intrigante é a segmentação – a divisão do corpo em vários segmentos repetidos, comum entre artrópodes (como insetos e crustáceos) e certos tipos de verme. A segmentação das trilobitas, um tipo bizarro e muito comum de artrópode extinto, permitiria que elas tivessem uma série de brânquias em cada segmento, formando um megaconjunto de coletores de oxigênio, diz Ward.
E quanto aos dinossauros? Nesse caso, o argumento central do paleontólogo é a queda catastrófica dos níveis de oxigênio, a partir de seu máximo no Carbonífero e no Permiano (período geológico que terminou há 250 milhões). Graças a uma série de razões, entre elas um efeito estufa descontrolado e a formação do supercontinente Pangéia, a proporção do gás na atmosfera teria caído para ridículos 12%. Resultado: a pior extinção em massa da história do planeta, com 70% da vida não-marinha indo parar sete palmos debaixo da terra.
No período geológico seguinte, o Triássico, os sobreviventes tiveram de rebolar para se adaptar às novas condições. E foi mais ou menos por essa época que um grupo de dinossauros teria desenvolvido sacos aéreos internos, alguns abrigados dentro de cavidades pneumáticas dos ossos. (A presença desses sacos é inferida pelos ossos ocos dos dinos, que também aparecem entre as aves, suas descendentes.)
Esse sistema é especial porque, ao contrário do nosso jeito de respirar (o ar que entra passa pelos pulmões, e o ar que sai também), o oxigênio é mandado primeiro para os sacos aéreos e só depois, numa via de mão única, passa pelos pulmões e é expirado. Aí é que vem o truque: essa passagem num só sentido permite que o sangue a ser oxigenado seja bombeado no sentido contrário ao da passagem de ar. Assim, ele absorve muito mais oxigênio. Calcula-se que uma ave de hoje tenha respiração 30% mais eficiente que a de um mamífero no nível do mar e 200% a 5.000 m de altitude.
O resultado, segundo Ward, foi que, quando os níveis de oxigênio caíram ainda mais no fim do Triássico, os menos afetados foram os dinos. Conforme a situação foi se normalizando nos milhões de anos seguintes, eles estavam numa posição excelente para aumentar de tamanho, colonizar todos os ambientes e virar os senhores da Terra.
A argumentação do paleontólogo é inteligente e apaixonada, mas já dá para imaginar que muita água vai rolar debaixo da ponte antes que a tese seja aceita. Para começar, o livro sofre do defeito de atribuir praticamente qualquer grande mudança evolutiva ao famigerado oxigênio – “pô, mas de novo?” é a reação que às vezes isso suscita no leitor. Quando tanto o sangue quente dos mamíferos (que surgiram junto com os dinos mas ficaram em segundo plano até a extinção dos lagartões) quanto o sistema de sacos aéreos ganham a mesmíssima explicação, você começa a desconfiar de um certo simplismo – uma coisa que explica tudo talvez, no fundo, não explique nada.
Além disso, Ward vai ter de suar muito a camisa para mostrar por A mais B que as quatro grandes extinções em massa da história da Terra (a quinta, a dos dinos, não conta) foram graduais o suficiente para serem explicadas pelo oxigênio despencando.
Nesse ponto é que a explicação dele é herética. O consenso hoje entre os paleontólogos é que não há como você estar “preparado” para uma extinção em massa – tratar-se-ia de um evento tão repentino e catastrófico que as regras normais da competição entre espécies deixam de valer. Só se escapa de uma dessas por pura sorte, ou rabo, como a gente diz no interior de São Paulo.
Mas, segundo Ward, a eficiência na absorção de oxigênio é que permitiu que algumas espécies competissem com outras durante as hecatombes, sobrevivessem e ganhassem o primeiro plano. Isso só não parece ter ajudado os dinos quando o céu caiu na cabeça deles. Bem, talvez seja melhor não ter tanta certeza, a julgar pela quantidade astronômica de pardais nas grandes cidades do planeta.