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Um farto Natal e um gordo Ano Novo!
Não sei quanto a vocês, mas eu simplesmente não agüento mais ligar a TV no fim de ano e ver aquela clássica entrevista com uma nutricionista sobre a ceia de Natal. (Nada contra as nutricionistas, tudo contra a falta de imaginação). A pobre entrevistada ainda nem abriu a boca e a gente já sabe tintim por tintim o que ela vai dizer: “A comida da ceia de Natal foi idealizada em países que não têm nada a ver com o nosso clima. É um absurdo comer essa montanha de gordura num calor de 30 graus. O ideal é uma saladinha, um grelhado e frutas.”
Permita-me discordar, estimada mestra da saúde nutricional. Eu seria capaz de apostar que, se Jesus tivesse nascido entre os tupinambás da Bahia e os índios do Brasil tivessem colonizado a Europa, o teor calórico da ceia natalina – e o de um jantar do Ano Novo, ou, aliás, o de qualquer refeição festiva – ia ser um bocado parecido. Se não fosse o peru ou a leitoa, seria a anta no rolete; sem o panetone, certamente teríamos a mandioca frita. Vamos encarar os fatos: nós somos uma espécie viciada em coisas engordativas. A dor de cabeça que nós temos com obesidade, doenças do coração e diabetes não me deixa mentir.
OK, esse é o lado ruim da nossa paixão por quantidades colossais de açúcares, gorduras e proteína. Mas há sinais claros de que esse apetite tenha sido essencial para fazer de nós o primata inteligente, socialmente complexo e tecnologicamente avançado que colonizou cada cafundó da Terra. Desse ponto de vista, a fartura de uma ceia de Natal pode ser vista como a quintessência do que nos faz humanos, se pararmos para pensar um pouquinho no que os fósseis, a arqueologia e a biologia nos contam.
Consideremos primeiro o nosso cérebro de 1.350 centímetros cúbicos, aquela coisa que, como mamãe dizia, não serve só para enfeitar o pescoço. O fato básico sobre o dito cujo é que ele é um órgão faminto. O paleoantropólogo americano Bill Leonard fez as contas: cada grama de cérebro consome 16 vezes mais energia que o mesmo grama de músculo. Mesmo em repouso, uma pessoa adulta pode gastar até 25% da sua energia dando comida para o bichinho (um bebê gasta 90% do seu “combustível” com a mesma coisa). Nisso, nós somos uma aberração completa: um mamífero “normal” precisa de, no máximo, 5% de sua energia para isso.
A questão é saber qual foi o malabarismo evolutivo que permitiu que a nossa cachola, de um tamanho comparável ao de um chimpanzé de hoje, mais que triplicasse. Afinal, se ter um megacérebro custa os olhos da cara, de algum lugar o “dinheiro” para esse luxo ia ter de sair.
Ora, o engraçado é que, há uns 2,5 milhões de anos, na África, duas coisas acontecem juntas. O cérebro da nossa linhagem sofre pela primeira vez uma expansão significativa, com o aparecimento dos primeiros membros do nosso gênero, o Homo; e surgem também as primeiras ferramentas de pedra.
Eram uma porcaria, diga-se de passagem: nenhum caçador-coletor de hoje ia se dignar a amarrar uma delas na ponta de uma lança (mesmo porque não dava). Mas, junto com o aparecimento delas, começam a se multiplicar também os restos de animais aparentemente devorados pelos primeiros Homo. As indicações de que os instrumentos serviam não só para cortar a carne de bichos caçados ou rapinados (isto é, obtidos como carniça) por nossos ancestrais, mas principalmente para quebrar os ossos e extrair o tutano – cheio de gorduras complexas altamente energéticas, como qualquer um que já comeu geléia de mocotó sabe.
A partir de então, a expansão cerebral se tornou ainda mais forte. Comer animais em quantidade significativa foi a maneira ideal de literalmente alimentar o processo, porque a carne é praticamente uma versão de baixa tecnologia de uma barrinha de cereais: muita energia empacotada em (relativamente) pouco espaço.
A coisa melhorou ainda mais quando nossa linhagem descobriu como controlar o fogo (há pelo menos 800 mil anos, embora evidências indiretas apontem para até 1,8 milhão de anos atrás, com os primeiros Homo erectus). Aplicado aos vegetais, o fogo tornou mastigáveis e nutritivos coisas como os tubérculos, tornando possível o milagre da batata e da mandioca fritas. Nossa dentição evoluiu em paralelo: os dentes encolheram, seu esmalte ficou mais fino e eles se tornaram menos especializados, como deve ser o de alguém preparado para comer tudo que não seja muito duro de mastigar.
E, quando a revolução da agricultura emergiu há uns 10 mil anos, nós estávamos prontos para empunhar o poder da evolução a nosso favor – inconscientemente, claro. Ao selecionar plantas como o milho ou o trigo para o consumo humano, nós, na prática, começamos a transformar alimentos vegetais em algo mais parecido com coisas de origem animal, altamente eficientes em termo de calorias por quilo. E os animais domésticos, por sua vez, viraram quase montanhas ambulantes de filés ou de gordura, se comparados com seus ancestrais selvagens.
Bem, aqui estamos nós, de novo diante da nossa ceia. Pense em como o peru cresceu e engordou (inclusive em menos tempo), quando comparado ao seu tataravô que ciscava selvagem na América do Norte. Considere o teor de gordura nas castanhas, nozes e avelãs, e a maneira inteligente de concentrar e preservar calorias chamada frutas cristalizadas.
Nossos ancestrais tornaram isso possível ao buscar combustível para seus cérebros vorazes, mas eles jamais sonhariam com tamanha fartura num só dia. Se hoje a nossa paixão desenfreada por calorias se voltou contra nós, é porque levamos uma vida muito mais sedentária que a deles, cercados por uma abundância que deixou de nos impressionar.
Eis aí, sobre a sua mesa e em volta dela, um resumo do que conseguimos em 6 milhões de anos, conquistas, riscos e possibilidades, na comida que você partilha e nos laços que isso cria com os que estão juntos com você. Tudo ao alcance de uma garfada.