Infância nas árvoresÉ engraçado como os acontecimentos de repercussões mais portentosas têm mania de se esconder. Repare: as coisas realmente importantes não saem por aí fazendo propaganda da própria relevância, com trombetas, salvas de canhão e tapete vermelho. Elas simplesmente acontecem, e o mundo não é mais o mesmo depois delas. Quando uma senhora negra do Alabama chamada Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar no ônibus para um branco em 1955, você pode estar certo de que ela não virou para a amiga do lado e disse: “OK, agora me deu uma vontade louca de acabar com a segregação racial nos Estados Unidos. Isso aqui está uma chatice mesmo”. Mas foi exatamente isso o que a ação dela desencadeou.
Pois muito bem. Nesta semana, pesquisadores americanos usaram dois fósseis recém-descobertos e praticamente completos para datar a origem dos primatas, o grupo de mamíferos ao qual nós e todos os outros macacos, grandes ou pequenos, pertencemos. Os esqueletos de 56 milhões de anos marcam, para todos os efeitos, a fase mais primitiva daquilo que um dia seria a humanidade. Será que o céu se abriu e a terra tremeu em homenagem à chegada da nossa estirpe?
O mais provável é que ninguém (fora predadores à procura de um almoço fácil) tenha se dado ao trabalho de notar bichinhos furtivos como o
Ignacius clarkforkensis e o
Dryomomys szalayi, habitantes da floresta subtropical que um dia recobriu o hoje gélido estado americano do Wyoming.
A descoberta dos fósseis da dupla foi capa da edição desta semana da prestigiosa revista científica “PNAS”. A grande sorte da equipe de pesquisa, capitaneada pelo paleontólogo Jonathan Bloch, da Universidade da Flórida, foi achar esqueletos praticamente completos vindos de uma fase da história primata que, antes disso, era conhecida praticamente apenas por dentes, cacos de mandíbula ou, no máximo, um ou outro crânio.
Fóssil do Dryomomys szalayi (esq.) e reconstrução que mostra como ele seria se estivesse completoEssa limitação de dados, como seria de esperar, gerava uma confusão infernal entre os pesquisadores. Com base apenas nas características dos dentes, muita gente apostava que a origem dos primatas “verdadeiros” teria acontecido milhões de anos mais tarde. Bichos como o
Ignacius e o
Dryomomys estariam numa espécie de limbo evolutivo – a meio caminho entre os primatas e outros grupos de mamíferos que vivem nas árvores, como os musaranhos-arborícolas (minha definição predileta: “macaco com cara de ratazana”) e os bizarros colugos, que lembram esquilos e são capazes de planar de tronco em tronco na mata.
Os fósseis recém-descobertos, porém, mostram que a dupla já tinha desenvolvido alguns dos traços definidores dos primatas de hoje. Suas patas permitiam tanto se agarrar a troncos mais grossos e escalá-los verticalmente quanto se esgueirar por galhos delgados, agarrando com as patas da frente. Para isso, era crucial ter unhas retas (e não garras) em pelo menos alguns dos dedos.
Tudo indica que os bichos também conseguissem saltar de galho em galho, uma habilidade comum a muitos dos primatas de hoje. Essa capacidade de locomoção, aliada aos detalhes revistos da dentição dos bichos, sugere uma dieta especializada em frutas e em seiva de árvores. No caso específico do
Ignacius, com tamanho estimado entre 100 g e 500 g, isso nos dá um animal com estilo de vida muito parecido com os sagüis, tão comuns nas matas e zoológicos brasileiros.
Bloch e companhia também compararam os novos fósseis com 85 espécies de primatas extintos e modernos, na tentativa de estimar quais foram as etapas e a cronologia da evolução do grupo. Para os paleontólogos, as possibilidades ainda estão em aberto no que se refere ao local de origem dos primatas. Apesar da abundância de fósseis norte-americanos, outros indícios, como a presença dos parentes mais próximos do grupo na Ásia, podem indicar uma origem oriental para nós e nossos parentes. Não seria uma surpresa completa: boa parte dos grupos “modernos” de mamíferos tem raízes comprovadamente asiáticas.
Por outro lado, eles apostam que houve uma quantidade razoável de desenvolvimento da linhagem primata antes de 57 milhões de anos atrás. Assim, a separação do grupo dos demais mamíferos teria se dado cerca de 10 milhões de anos antes, nos últimos suspiros da Era dos Dinossauros. (Esse período chegou a um fim catastrófico há 66 milhões de anos, muito provavelmente graças à queda de um meteorito no atual golfo do México.) Nossos ancestrais teriam começado a ganhar identidade própria pouco antes do fim dos dinos, que abriu novas oportunidades evolutivas para os mamíferos no mundo todo.
Os paleontólogos enxergam o período que se seguiu a essa catástrofe como um momento de exploração e transformação gradual. Os primatas foram ganhando sua “cara” típica evoluindo em conjunto com as árvores produtoras de frutos, desenvolvendo cada vez mais suas habilidades para viver dependurados, agarrar ramos e saltar de galho em galho. Para ficar de olho fixo tanto nos frutos quanto no próximo galho a ser agarrado sem correr o risco de levar um tombo, os primatas teriam desenvolvido também a visão binocular – os dois olhos posicionados na frente da face, e não um de cada lado da cara, como a maioria dos mamíferos.
Nem é preciso dizer que o quadro traçado por Bloch e companhia é provisório. Novos fósseis virão e, como em qualquer área da ciência, poderão nos forçar a reinterpretar o que parecia certo.
Mas não deixa de ser divertido olhar para as próprias mãos e pensar que a capacidade de digitar este texto, de construir uma casa ou de tocar um instrumento musical – todo o edifício da cultura humana, dependente como é da destreza das nossas mãos – é um subproduto do primata de 56 milhões de anos que tentava se agarrar aos galhos e fisgar a próxima frutinha. Imprevisível é apelido.