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Visões da Vida

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    Sabe aquela do hominídeo?

    Palavra de quem já esteve a poucos metros de uma horda de chimpanzés adolescentes: volta e meia dá aquela sensação desgraçada de que os bichos estão rindo da sua cara. Os momentos mais hilários (pra eles, pelo menos) devem ter sido quando o Guga jogou uma “pedrinha” – que se revelou, sob inspeção mais cuidadosa, um pedaço de cocô ressecado – na minha cabeça, ou quando o Billy quase me arrancou o escalpo ao puxar o meu cabelo. A gente pode não saber muita coisa sobre o senso do humor dos grandes macacos, mas com certeza “Os Três Patetas” ou qualquer filme do Jim Carey seriam um sucesso entre eles.

    Tempos atrás, uma afirmação dessas geraria uma enxurrada de protestos pedantes, de preferência citando Aristóteles. Afinal, como dizia o filósofo grego do século IV a.C., o homem é o único animal que ri. É? Mais ou menos. Duas coisas ficaram patentes ao longo da última década, quando os estudos sérios sobre o riso (é, isso existe) uniram os esforços de neurocientistas, médicos, e biólogos evolutivos. A primeira é que as gargalhadas são, ao que tudo indica, uma característica antiga dos mamíferos, presente em bichos tão diferentes quanto ratos, cachorros e gente. A segunda é que, como espécie, nós aparentemente somos doutores da alegria: desenvolvemos ao máximo essa capacidade como ferramenta de montagem da nossa vida social intensa e complexa. Em outras palavras, rir pode ser uma das principais estratégias que criamos para funcionar bem socialmente.

    Vamos, no entanto, começar do começo. Está fora de questão que rir está entre os chamados universais humanos – gente de qualquer cultura aprecia uma boa gargalhada. Nem os franceses escapam. (Como diz um sapo francês num desenho animado recente, obviamente feito na Inglaterra: “É claro que eu acho a dor de todo mundo engraçada, menos a minha. Eu sou francês!”) Ninguém precisa ensinar bebezinhos de 15 dias de vida a rir – eles fazem isso sozinhos, e com muito gosto. A forma espontânea e “natural” do riso, diferente dos sorrisos amarelos ou das risadas forçadas que a gente dá quando está com vergonha, brota diretamente da atividade do chamado sistema límbico, uma área primitiva do cérebro, ligada às emoções, que compartilhamos com praticamente todos os outros mamíferos.

    Diante disso, era mesmo de esperar que outros bichos tivessem sua própria versão do riso, e é o que o estudo com os grandes primatas tem revelado. Chimpanzés, gorilas e orangotangos emitem um tipo específico de som quando estão envolvidos em brincadeiras sociais – entre eles, como entre nós, fazer cócegas um no outro é a receita certa para produzir “risadas”. O mais interessante é que a estrutura sonora desse riso, embora emitido numa freqüência diferente do nosso, corresponde bastante bem ao que se vê entre bebês humanos.

    Nossa relação de primos de primeiro grau com os grandes macacos (mais de 95% de semelhança no DNA não é pouca coisa) poderia sugerir que tudo isso se trata de uma coisa única entre nós e eles, mas não é o que estudos com cães e ratos indicam. O melhor amigo do homem também tem sua própria vocalização “risonha”; quando uma gravação dela foi tocada para os cachorros num abrigo de animais, eles instantaneamente ficaram mais calmos e bem-humorados, abanando o rabo e lambendo o focinho dos companheiros.

    Quanto aos roedores, os resultados do trabalho do neurocientista Jaak Panksepp, da Universidade do Estado de Washington, nos Estados Unidos, mostraram a mesma propensão dos chimpanzés a rolar de rir quando humanos ou companheiros de espécie fazem cócegas nos bichos ou brincam com eles. O barulhinho que eles emitem – o termo técnico é “gorjeio” – está acima das freqüências que o ouvido humano consegue captar, mas é facilmente reconhecível nas gravações. Os ratos engraçadinhos tendem a ser mais populares do que os de cara fechada, reforçando o que parece ser o papel social do riso. Essa capacidade, porém, não é para a vida toda: conforme chegam à idade adulta, os roedores se tornam menos risonhos.

    Nós, por outro lado, apreciamos uma boa gargalhada ao longo da vida toda. De quebra, o humor pastelão não é o único jeito de fazer o Homo sapiens rir: piadas envolvendo sutis (OK, às vezes nem tão sutis) jogos de palavras podem ter o mesmo efeito. Será que há alguma coisa única no jeito humano de rir?

    Um time de pesquisadores da Universidade de Kent, no Reino Unido, aposta que sim. Nossa vida social é indiscutivelmente mais complexa do que a de qualquer mamífero, principalmente por envolver cooperação, companheirismo e até sacrifício em relação a pessoas que não são nossos parentes diretos e podem até ser completos desconhecidos. Mark Van Vugt e seus colegas de Kent acham que o riso pode ter muito a ver com isso, e bolaram um jeito engenhoso de testar a idéia.

    Basicamente, o que eles fizeram foi submeter algumas centenas de universitários britânicos a duas sessões separadas de vídeo. Alguns dos voluntários assistiam a programas engraçados – como “Os Simpsons”, “Friends” e uma versão inglesa das sempre populares videocassetadas –, enquanto outros viam programas considerados neutros ou até chatos. Enquanto isso, dois auxiliares de pesquisa tinham a tarefa nada engraçada de ficar anotando quantas risadas os sujeitos davam ao longo da sessão de vídeo.

    Depois, os voluntários eram reunidos em grupos de quatro pessoas (sempre formados por completos desconhecidos) e participavam de uma brincadeira de cooperação. Nesse jogo, cada pessoa recebia o equivalente a R$ 10 e podia contribuir quanto quisesse desse dinheiro para um fundo coletivo, enquanto mantinha o direito de embolsar diretamente o montante. Acontece que o dinheiro coletivo era multiplicado por dois e depois dividido igualmente entre os participantes. Alguém totalmente egoísta poderia se sentir tentado a contribuir pouco para o fundo coletivo e, mesmo assim, lucrar com o investimento dobrado feito pelos outros.

    Mas não foi o que aconteceu com as pessoas que assistiram aos vídeos engraçados. Elas tendiam a ter muito mais espírito de equipe, contribuindo para o investimento coletivo, do que as que viram os programas não-engraçados. E os dados vão além: a generosidade do contribuinte foi diretamente proporcional ao número de risadas que ele deu – quanto mais risadas, mais dinheiro foi para a caixinha coletiva. Quem assistiu aos humorísticos também tinha mais tendência a dizer que se identificava com o seu grupo, que se sentia emocionalmente parte dele.

    Mark Van Vugt e companhia acham que o efeito tem a ver com a liberação de endorfinas, substâncias que atuam no sistema nervoso e produzem uma sensação de euforia leve e bem-estar. Como é difícil medir diretamente a presença das ditas cujas (é preciso tirar uma amostra do fluido espinhal, coisa que os voluntários certamente não iam achar divertido), a equipe testou a tolerância à dor das pessoas, um bom jeito indireto de saber se as endorfinas estão agindo, já que elas têm efeito analgésico.

    Para isso, eles colocaram um objeto resfriado a –16 graus Celsius em cima dos braços das víti... digo, dos voluntários, e mediram quanto tempo eles agüentavam a dor antes e depois de assistir aos vídeos engraçadinhos. E o efeito das endorfinas aparentemente se fez sentir: em média, as pessoas agüentavam quase meio minuto a mais após algumas boas risadas.

    O que toda essa massa de dados indica? Para os pesquisadores britânicos, que a velha máxima “rir é o melhor remédio” pode se referir não só ao organismo, mas também aos relacionamentos humanos. Para eles, as gargalhadas teriam sido cooptadas para aumentar a nossa capacidade de confiar em estranhos e tratá-los de maneira justa – como aconteceu no jogo dos investimentos –, permitindo que as nossas sociedades grandes e complexas funcionassem bem. O bem-estar físico trazido pelo riso nos tornaria mais relaxados, abertos e confiantes conosco e com os outros. E, como qualquer característica biológica vantajosa, teria sido favorecido pela seleção natural e se tornado, cada vez mais, um traço típico da nossa espécie.

    Para variar, ainda é cedo para dizer se foi assim que aconteceu. Mas não deixa de ser divertido imaginar que, mais do que as lanças com ponta de pedra ou o uso do fogo, a nossa arma para conquistar a Terra tenha sido uma piada de mamute.

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Reinaldo José Lopes

Bem-vindos a uma viagem pelos quase 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Este espaço é dedicado a explorar como a evolução forjou e ainda forja a variedade estonteante dos seres vivos, da mais modesta bactéria à complicada e fascinante linhagem humana. Meu nome é Reinaldo José Lopes, sou repórter da editoria de Ciência e Saúde do G1, e convido todos vocês a participarem dessa jornada imprevisível e maravilhosa.






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