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Visões da Vida

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    Terra de gigantes

    Foi bom enquanto durou. O chinês Bao Xishun saiu dos cafundós de sua terra natal, a Mongólia Interior, e girou o mundo feito uma celebridade de primeiro escalão, do alto dos seus 2,36 m. Seu casamento (com uma moça de 1,68 m) foi celebrado com pompa digna de Gêngis Khan. Xishun passou até pelo Brasil, como parte de uma turnê para divulgar o livro Recordes Mundiais Guiness, onde ele próprio constava como o homem mais alto do planeta. Constava: pretérito imperfeito. O ucraniano Leonid Stadnyk, com 2,57 m de altura homologados pelo Guiness, destronou o pastor da Mongólia. Até a glória de um gigante, pelo visto, é passageira.

    O que não é nem um pouco passageiro, por outro lado, é o interesse que os gigantes despertam. Nem é preciso quebrar muito a cabeça para se dar conta de que eles estão presentes no imaginário de praticamente qualquer cultura do mundo. Os gigantes circulam com seu corpanzil estabanado nas mais variadas mitologias, da Bíblia (o bom e velho Golias) ao mundo de Harry Potter (onde encontramos o bonachão Hagrid, na verdade um meio-gigante).

    Há uma ironia em todas essas lendas de gigantes que quase sempre passa despercebida. Em geral, os grandalhões são figuras do passado remoto: teria havido uma época em que os homens podiam alcançar estatura gigantesca, mas o mundo envelheceu, decaiu, e agora a gente tem de se contentar em ser relativamente nanico. (É o que diz a mitologia grega, por exemplo, na qual os grandes heróis do passado, como Hércules e Teseu, têm estatura sobre-humana.)

    Acontece que, no mundo real, a coisa aconteceu exatamente ao contrário: perto de nossos ancestrais remotos, nós é que somos os gigantes. E os mecanismos que nos transformaram de baixotes que éramos em relativos titãs provavelmente não são muito diferentes dos que, hoje em dia, podem produzir figuras do porte de Xishun ou Stadnyk. Parece doideira? Pois acompanhe essa história comigo, intrépido leitor.

    Vamos começar do básico: qual é a receita para produzir um humano gigante? Na grande maioria dos casos de gigantismo (inclusive no do atual homem mais alto do mundo, o ucraniano Stadnyk), ela é bem conhecida. Tudo começa com uma perturbação na hipófise, uma glândula do tamanho de uma ervilha que fica na base do nosso cérebro. Entre outros hormônios essenciais, a hipófise produz o GH (sigla inglesa para hormônio do crescimento), o principal responsável por determinar a altura que as pessoas alcançam na vida adulta.

    O GH faz as pessoas espicharem de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, ele age diretamente sobre as células de cartilagem que ficam nas epífises, as extremidades dos ossos que estão disponíveis para expansão. Nos ossos longos (os das pernas e braços, por exemplo) de crianças e adolescentes, as epífises têm uma espécie de ponta cartilaginosa que vai se esticando conforme o crescimento acontece. Quando o tamanho adulto é alcançado, as epífises se soldam, de forma que o osso não tem mais para onde crescer. O GH, além disso, também estimula a produção do IGF-1, um fator de crescimento que atua não só sobre as cartilagens das epífises como também sobre a multiplicação de outros tecidos do corpo.

    Pessoas como Stadnyk sofrem justamente de um tumor benigno na hipófise, que acaba desencadeando uma produção hiperativa de GH. (Relatos da imprensa ucraniana sugerem que o problema pode ter sido desencadeado por uma cirurgia no cérebro quando ele tinha 14 anos – dentro, portanto, da “janela de atuação” do hormônio, quando as epífises ainda não se soldaram.) Ao longo do tempo, o tumor pode crescer, pressionando outras estruturas do cérebro, como o nervo óptico (o que leva a problemas de visão). Dores de cabeça também são comuns. A própria fisionomia da pessoa é afetada, já que ela também tende a desenvolver ossatura pesada, mãos e pés desproporcionais e queixo proeminente.

    Pois muito bem. Hormônios e fatores de crescimento não se fossilizam, mas qualquer comparação entre nós e os prováveis ancestrais da humanidade que viveram há mais de 1,5 milhão de anos faria nossos tataravós evolutivos acharem que os netinhos estão precisando ir ao endocrinologista. Levando em conta as melhores estimativas dos fósseis e da genética, nossa linhagem emergiu há 6 milhões de anos, mais de 4 milhões dos quais nós teríamos passado como pintores de rodapé. Nenhum dos ancestrais mais antigos do homem, quando adulto, passava de 1,20 m de altura.

    A reviravolta parece ter vindo justamente há cerca de 1,5 milhão de anos, com o Homo erectus. Um dos fósseis africanos mais bem preservados e estudados da espécie é o do chamado menino de Nariokotome, um garoto queniano de uns 10 anos de idade que media 1,60 m – acredita-se que, se tivesse chegado à idade adulta, ele poderia ter chegado a 1,85 m. O que teria levado o Homo erectus a aumentar seu tamanho em cerca de 50% em relação a seus ancestrais diretos?

    Ao longo da evolução, os bichos crescem por uma série de motivos. Os herbívoros podem ficar grandalhões como forma de aumentar sua margem de segurança em relação a predadores (acredite, nenhum leão se arrisca a abater um elefante adulto saudável) ou como efeito colateral dos gigantescos sistemas digestivos necessários para processar alimento vegetal de baixa qualidade. Criaturas de crescimento lento, como vários répteis, também ficam cada vez maiores conforme envelhecem.

    O caso do Homo erectus, porém, é diferente. Vários fatores díspares parecem ter se combinado. Um deles parece ser a capacidade melhorada dessa espécie de hominídeo na hora de obter alimentos de alta qualidade, em especial proteína animal (que ele conseguia caçando ou agindo como carniceiro). Isso certamente lhe dava mais combustível para o crescimento, mas é provável que houvesse um imperativo ainda mais importante: perder calor.

    Não é de estranhar que o menino de Nariokotome tivesse o mesmo físico alto e esbelto dos povos africanos que ainda vivem no Quênia e na Tanzânia. Os corpos com esse formato aumentam a superfície do corpo em relação ao seu volume, o que facilita justamente a necessidade de transpirar e eliminar calor num ambiente tórrido como o da região. Aliás, essa parece ser um dos indícios claros de que o Homo erectus deixou para trás o ambiente florestal, habitado pelos hominídeos mais primitivos, e se tornou uma criatura de ambientes abertos, atravessados por muita luz solar.

    Idealmente, deveria ser possível testar essas inferências. Suponhamos que uma diferença em algum detalhe das funções endócrinas tenha permitido que o Homo erectus espichasse e fizesse das áreas abertas seu habitat preferido. Será que um retorno à floresta tropical levaria os seres humanos a caminharem na direção oposta e deixarem de ser gigantes?

    Há alguns indícios, intrigantes e ainda provisórios, de que isso pode acontecer. Entres os seres humanos modernos, poucas populações vivem em simbiose mais estreita com as florestas tropicais do que os pigmeus africanos. Embora hoje eles falem línguas emprestadas de seus vizinhos agricultores, muitos pesquisadores acreditam que esses caçadores-coletores são uma das divisões mais antigas e diferenciadas da humanidade.

    As raízes genéticas do tamanho diminuto dos pigmeus (média de 1,50 m ou menos quando adultos) ainda são misteriosas, mas alguns testes de laboratório conduzidos com células deles sugerem que elas são estranhamente resistentes à ação do IGF-1, aquele importante fator de crescimento que é afetado pela hipófise. É quase como se eles fossem o outro lado da moeda do gigante ucraniano e seus pares.

    Muita coisa mudou desde que o menino de Nariokotome e sua família espreitavam antílopes no Quênia, mas a bagagem biológica que os ajudou a dominar seu ambiente aberto e quente continua conosco. Quando os primeiros Homo sapiens emergiram na África, levaram consigo essa mesma adaptação para os mais variados ambientes, e em muitos deles seus descendentes conservaram o mesmo tipo básico de corpo. Vistos sob o ângulo certo, somos todos gigantes.


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Reinaldo José Lopes

Bem-vindos a uma viagem pelos quase 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Este espaço é dedicado a explorar como a evolução forjou e ainda forja a variedade estonteante dos seres vivos, da mais modesta bactéria à complicada e fascinante linhagem humana. Meu nome é Reinaldo José Lopes, sou repórter da editoria de Ciência e Saúde do G1, e convido todos vocês a participarem dessa jornada imprevisível e maravilhosa.






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