A antiga serpente
Por algum motivo inexplicável, as cobras mexem com a imaginação das pessoas (ah, e não seja malicioso, por favor; não estou me referindo ao aspecto fálico do réptil). Um misto de fascínio e repulsa parece ser a reação instintiva de quase todo mundo diante das escamas lustrosas e da língua bífida do bicho. Talvez seja nossa memória coletiva do passado remoto ecoando: gerações e gerações de mamíferos cujos ancestrais pequenos, felpudos e quentinhos foram parar no papo de uma serpente, milhões de anos atrás. Fazer de um exemplar do grupo o vilão primordial foi um dos toques de gênio do escritor judeu anônimo que deu forma ao livro do Gênesis, o primeiro da Bíblia. De fato, a serpente era a melhor atriz para o papel.
O que esse gênio israelita certamente não imaginava, contudo, é a história bizarra por trás de sua vilã – uma história que, como a de tantos outros organismos, é um testemunho vivo dos caminhos malucos que a evolução pode seguir. O pedaço mais irônico dessa trama é que, enquanto a serpente do Gênesis foi amaldiçoada com o destino de rastejar e comer pó pelos séculos dos séculos, suas primas não-literárias parecem ter surgido justamente da necessidade de se enfiar terra adentro.
É claro que, como em tudo que se refere ao passado remoto dos seres vivos, há controvérsias. Duas hipóteses costumavam bater cabeça na tentativa de explicar a origem das cobras. Antes delas, porém, vamos começar com um fato incontroverso: toda serpente é um lagarto sem pernas. Fim de papo. Aliás, ainda há cobras por aí que carregam no corpo a marca de seus antigos membros. Se você for corajoso o suficiente para manusear uma jibóia ou uma píton (devo dizer que já peguei uma jibóia na mão – com todo respeito, é claro – e as escamas até que são agradáveis ao toque), não vai precisar de muito esforço para identificar os resquícios de patinhas.
Conhecidas tecnicamente como “esporas anais”, elas se parecem mais com garras, como você pode ver na foto ao lado, que mostra uma píton. Como se trata de algo muitíssimo menor que um membro funcional, os bichos cooptaram o restolho para um uso muito mais agradável: os machos o utilizam para “firmar” o corpo da fêmea durante o ato sexual.

Voltemos agora às nossas duas hipóteses concorrentes. Fósseis de serpentes que ainda apresentam características mais claras de lagarto começam a pipocar entre rochas do Período Cretáceo, o último da era dos dinossauros, que vai de 140 milhões a 65 milhões de anos atrás. Esses bichos bizarros possuem vestígios mais claros de patas traseiras, e muitos deles vêm, imagine você, de sedimentos marinhos, ou seja, rochas que só poderiam ter se formado debaixo d’água.
Portanto, poderíamos apelidar essa primeira idéia de “hipótese da serpente marinha”. Seus defensores têm, inclusive, uma linha de raciocínio ainda mais pitoresca para defendê-la. Eles enxergam semelhanças de anatomia entre as primeiras cobras e os mosassauros, ferozes lagartões marinhos (os menores tinham cerca de 3 m de comprimento) que também viveram sob o domínio dos dinos.
Pé no sacroÉ aí que entra em cena a segunda hipótese e seu maior baluarte, a
Najash rionegrina. O bicho de 90 milhões de anos é argentino, mas tem entre seus descobridores um brasileiro, Hussam Zaher, do Museu de Zoologia da USP. Ela não é mais antiga do que qualquer outra das serpentes fósseis, mas conta com um trunfo inequívoco: um sacro.
Antes que você solte um monumental “e daí?”, eu explico: o sacro é a região da coluna vertebral que serve para sustentar o peso do corpo – isso, obviamente, num bicho com patas (caso contrário, não há nada a ser sustentado). A presença clara do sacro e as patinhas que você pode ver na reconstrução da espécie aqui ao lado fazem da
Najash rionegrina uma fortíssima candidata ao posto de cobra mais primitiva do planeta. Primitiva no sentido que a biologia evolutiva dá à palavra: o de um animal que retém as características originais do grupo ao qual pertence.
E adivinhe só: o bicho vem de sedimentos terrestres, continentais. Nada de água por perto. Isso levou Zaher e seu colega Sebastián Apesteguía, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, a postular que, na verdade, as primeiras serpentes eram animais que perderam seus membros como adaptação a uma vida rastejante, abrindo tocas no solo. Isso explicaria o porquê da semelhança com supostas modificações para a vida aquática: para nadar ou para rastejar, é interessante alongar o corpo e encolher os membros.
O achado pode ter providenciado o “por que” da história – ainda é cedo para dizer –, mas ainda não nos dá o “como”. E é nesse ponto que a moderna biologia molecular pode trazer informações preciosas para entender como a evolução da forma dos seres vivos acontece. Colocando a questão em termos mais diretos: com quantas vértebras se faz um corpo de cobra?
Acontece que a estrutura corporal dos vertebrados é determinada em grande medida por um conjunto de genes da família Hox, responsáveis por indicar, entre outras coisas, informações sobre a posição onde um membro ou apêndice corporal deve aparecer. Um dos membros dessa família de genes, o Hoxc6, diz até onde devem ir as vértebras cervicais, ou seja, as que têm formato adequado para formar o pescoço. Depois delas vêm as vértebras torácicas, ou do tórax.
Ora, o que acontece nas serpentes é que o gene Hoxc6 praticamente não se expressa (ou seja, não está ativo) abaixo da cabeça. Dali para baixo, as vértebras são todas torácicas. Traduzindo para o português mais direto possível: um dos primeiros passos para transformar um lagarto em cobra seria simplesmente transformar o pescoço inteiro num prolongamento do tórax.
Note que, ao menos para essa mudança, não foi preciso nem o surgimento de um gene novo – bastou modificar o local onde um gene que era velho conhecido costuma se manifestar. Há quem veja a evolução como um artista preguiçoso e não muito hábil, experimentando a esmo com tintas meio velhas e até com telas já usadas. Como no caso das jibóias, dá até para ver a pintura antiga por trás da nova. Mas o efeito do quadro, apesar de tudo, ainda é de tirar o fôlego.