Até logo e obrigado pelos peixes 
- Alô, é da Terra? Aqui é uma forma avançada de inteligência alienígena. Eu poderia estar falando com a espécie inteligente responsável do planeta, por favor?
- Uau... putz... é um ET mesmo. Minha Nossa Senhora... oi, pode falar, moço. Eu sou um representante da espécie inteligente da casa. Sou humano.
Homo sapiens. Gente, sabe.
- Ah... humano. Hã... Certo. Só um minuto, senhor. Vou estar checando com o meu superior, OK?
Segundos intermináveis de silêncio. O atendente de telemarketing alienígena reaparece.
- Alô, senhor? Obrigado por aguardar. Será que o senhor poderia colocar o golfinho mais próximo na linha?
Seria muita sacanagem se as décadas da nossa busca por vida inteligente fora da Terra terminassem desse jeito inglório, mesmo porque aqueles malditos golfinhos precisariam do
nosso aparato tecnológico para falar com o operador de telemarketing de Andrômeda. O que, aliás, prova que o diálogo acima só funciona como piada. A espécie mais inteligente do planeta teria de ser capaz, por definição, de desenvolver uma civilização tecnológica – do contrário, não seria digna do título. Né?
Aqui, como em quase qualquer outro contexto, as coisas não são nem de longe tão simples quanto parecem. Vamos deixar de lado a questão da tecnologia por alguns parágrafos e nos concentrar no órgão que é a sede da inteligência: o cérebro. Acontece que os seres humanos, apesar da massa encefálica proporcionalmente imensa e um bocado complexa, não são os campeões incontestáveis nesse quesito. Dependendo de como você faz a conta, quem ganha são os odontocetos – nome dado aos golfinhos, às orcas e aos outros animais com dentes (daí o “odonto”) do grupo das baleias.
Em vários atributos – tamanho absoluto, tamanho relativo e até quantidade de “dobrinhas” no córtex cerebral –, o cérebro desses bichos parece ganhar do nosso. Tais dados se juntam a uma série de evidências comportamentais para demonstrar que existe algo de muito incomum nas capacidades mentais desses mamíferos marinhos. Quão incomum? Ninguém ainda está em posição de dizer com certeza absoluta.
Começo fraquinhoNem sempre foi assim, contudo. Os primeiros cetáceos, ancestrais dos golfinhos e das baleias, começaram seu retorno aos mares há cerca de 55 milhões de anos, como mostram os fósseis. Inicialmente, não passavam de mamíferos terrestres de casco, primos dos modernos hipopótamos e porcos que não eram exatamente filósofos natos.
Deixar de lado os cascos de hipopótamo e ganhar a aparência de um peixe é uma transição evolutiva das mais complicadas. Para alguns cientistas, céticos quanto à inteligência dos cetáceos atuais, essa metamorfose já seria suficiente para explicar os cérebros estranhamente grandes e complexos dos bichos – eles seriam apenas uma resposta ao novo ambiente. Uma hipótese mais específica diz que, no caso dos odontocetos, o surgimento de uma massa encefálica supercrescida teve relação com o esfriamento dos oceanos no começo do Oligoceno, há 34 milhões de anos. As células responsáveis por essa inflação cerebral seriam meras produtoras de calor. Ou seja, o cérebro dos odontocetos teria aumentado não para ficar mais esperto, mas para não congelar.
Beleza de hipótese, mas ela parece não casar com alguns fatos. O principal deles é que o tamanho corporal dos odontocetos
diminuiu nessa época, em vez de aumentar. Se o frio marinho do Oligoceno fosse um incômodo, era de esperar que eles crescessem – bichos maiores perdem calor mais devagar que bichos menores. Além disso, há uma espécie de fronteira de tamanho acima da qual os animais de sangue quente ficam praticamente protegidos da perda de calor. Os odontocetos já tinham cruzado essa fronteira também e, pelo visto, não tinham necessidade de esquentar os próprios miolos.
No entanto, há alguns indícios fósseis de que, nessa mesma época, a arquitetura cerebral dos bichos mudou, com uma reorganização do órgão em áreas bem desenvolvidas e especializadas que lembram as dos golfinhos, orcas e cachalotes modernos. Ao mesmo tempo, a evolução estaria ocupada em “inventar” o sistema de sonar desses bichos – uma forma de usar sons parecidos com “cliques” e seus ecos para localizar objetos debaixo d'água, mais ou menos como os morcegos fazem no ar. Talvez a mistura do sonar com a vida social altamente complexa de golfinhos e assemelhados tenha sido suficiente para deflagrar o aumento descontrolado do cérebro.
Mostre o seu que eu mostro o meu 
Vamos, no entanto, aos números, gentilmente compilados pelo neurocientista americano R. Douglas Fields. Talvez um dos jeitos menos enganosos de comparar nosso cérebro com o dos odontocetos é tomar como base a quantidade de dobras e sulcos no córtex, a região cerebral considerada a sede do processamento inteligente. Quanto mais dobras e sulcos, maior a área do cérebro – é como pegar uma folha de papel toda amassada e transformá-la num objeto liso e plano de novo.
Bem, a área do córtex humano é de 2.275 centímetros quadrados (equivalente à de um guardanapo), enquanto a do golfinho-comum (
Delphinus delphis) é de 3.745 centímetros quadrados (ou seja, mais ou menos uma folha de jornal aberta). OK, o bicho é bem maior que uma pessoa. Mas, peso por peso, o cérebro do bicho ainda é mais cheio de dobrinhas: cerca de 50% mais circunvoluções, como são chamadas – e elas são consideradas um indício confiável de inteligência.
Um especialista em cetáceos mais impaciente provavelmente diria que esse monte de contas é desnecessário. O fato é que temos evidências abundantes de comportamento complexo e inteligente entre as mais variadas espécies de odontocetos – e até entre os misticetos, as baleias “não-dentadas”, como as jubartes e francas.
Para citar os mais óbvios: formação de alianças; uso de “dialetos” diferentes na comunicação por cliques; capacidade avançadíssima de imitação de sons e comportamentos, aparentemente melhor que a de qualquer outro animal do planeta; provável presença de cultura – ou seja, comportamentos que são aprendidos, não dependem de pressões ambientais para surgir e variam de bando para bando de golfinhos ou orcas. (O meu favorito é o uso de esponjas para manipular peixes espinhentos sem machucar o rostro, ou focinho, presente numa população de golfinhos-nariz-de-garrafa.)
Mas há mais. Como nós, os golfinhos se reconhecem no espelho, como mostra a foto nesta página. E, segundo dados recentes, podem até se chamar pelo nome usando seus estalidos de sonar – cada golfinho parece usar um “assobio-assinatura” para si mesmo, e que ele identifica como pertencente aos vários membros de seu grupo.
Diferenças relevantesPor outro lado, algumas diferenças relevantes parecem existir entre o cérebro dos cetáceos e o nosso. Sabe-se que eles têm cinco camadas especializadas de neurônios em seu córtex, enquanto o nosso possui seis. Além disso, possuem muito mais células gliais – companheiras dos neurônios que parecem funcionar como uma espécie de “suporte de vida” deles. Por outro lado, alguns estudos recentes sugerem que as células gliais também podem participar do processamento de informações. Nesse caso, a maior presença delas não poderia ser necessariamente considerada uma desvantagem.
O que tudo isso aponta é que, apesar da semelhança superficial em anatomia e comportamento, nossa cabeça e a dos cetáceos funcionam de forma vastamente diversa. E, é claro, baleias e golfinhos não possuem mãos. Falta-lhes a capacidade de manipulação delicada de objetos que parece estar na raiz do desenvolvimento tecnológico que nos trouxe até aqui – ou pelo menos é o que parece.
É melhor não ficar imaginando que, para nós, talvez tivesse sido uma boa coisa não ter essa capacidade manipuladora. Já virou um lugar-comum algo deplorável dizer que baleias e golfinhos são tão inteligentes quanto nós, mas mais sábios, por terem se “recusado” a seguir o mesmo caminho dos seres humanos, vivendo em harmonia com seu ambiente e consigo mesmos. Bobagem: golfinhos praticam estupro grupal e infanticídio; as orcas matam e comem outras baleias. A sorte deles é que não possuem os meios para a matança em larga escala.
A lição que talvez se possa tirar do que já aprendemos sobre a inteligência dos cetáceos é a de que só arranhamos a complexidade do mundo vivo aqui na Terra. É absurdamente difícil tentar entrar na cabeça de outra espécie ou tentar decifrar sua linguagem (se é que isso existe). Mas, se e quando chegar a hora de lidar com uma inteligência realmente alienígena, não haverá ferramenta mais valiosa do que a compreensão da mente dos demais habitantes do nosso planeta.
Dadas as diferenças inevitavelmente brutais que bilhões de anos de evolução em planetas separados vão engendrar, talvez o mais racional seja sonhar menos com o contato improvável com um ET e se concentrar nos alienígenas que já estão entre nós – criaturas cujo berço é o mesmo que o nosso, cujo sangue quente difere muito pouco do que corre nas nossas veias. Desse ponto de vista, chega a ser absurdo ficar se perguntando se estamos sozinhos no Universo. Não estamos. Nunca estivemos.
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Gostaria de dedicar esta coluna à memória de Douglas Adams, autor da série “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de quem eu roubei descaradamente (mas afetuosamente, se serve de desculpa) o título desta coluna.