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Visões da Vida

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    O retorno dos mortos vivos

    Alguém já disse que o DNA de uma espécie é a soma de seus ambientes passados – os genes de um camelo falam de deserto e estepe, os de um cachalote descrevem lulas e as profundezas do mar, e por aí vai. Um outro jeito de pensar no material genético, no entanto, é vê-lo como um conjunto de cicatrizes de batalha, acumuladas ao longo de milhões de anos. Todas as vezes que um ancestral tomou uma pancada bioquímica e sobreviveu para contar a história – a cada infecção, picada de inseto ou mordida de cobra –, cresceram as chances de que seus descendentes portassem a marca desse golpe rebatido.

    Ainda assim, a analogia é imperfeita. No caso de quase 10% do genoma humano, o DNA que herdamos está menos para cicatriz de combate e mais para ponta de flecha, fragmento de lança ou bala alojada. Isso porque esse material genético é formado por pedaços, hoje inofensivos, dos próprios inimigos. São, para todos os efeitos, vírus fósseis que viraram parte de nós. Agora, cientistas do mundo todo estão tentando ressuscitá-los.

    Um deles, aliás, já voltou dos mortos, por obra e graça da moderna biologia molecular. Thierry Heidmann, o cientista francês responsável pela façanha, foi logo batizando o vírus redivivo de “Fênix”. É inevitável se perguntar se essa não é uma monumental idéia de jerico, mas o fato é que temos muito a aprender com esses assassinos domados.

    Para começar, há quem diga que eles trarão pistas valiosas sobre como os atuais matadores de gente – entre eles o HIV – podem ser detidos. E alguns indícios sugerem que, se nós conseguimos “humanizar” esses vírus, eles também podem ter nos “humanizado”, proporcionando mudanças genéticas cruciais para a trajetória evolutiva da nossa espécie. Antes dessa viagem, no entanto, é preciso um pequeno beabá para entender como tais vírus foram parar no núcleo das nossas células.

    Integração forçada
    Os vírus de que estamos falando são conhecidos como retrovírus endógenos e, de uma forma ou de outra, compõem 8% do genoma humano. A segunda parte do apelido é só um jeito cientificamente preciso de dizer que eles são parte do nosso próprio material genético. A primeira, porém, pode suscitar associações bem mais sombrias, em especial para quem sabe como a Aids funciona. Isso porque o próprio HIV é um retrovírus.

    Anos atrás, o americano Robert Gallo, co-descobridor do HIV, explicou-me ao telefone por que considerava o vírus da Aids tão difícil de combater. “Ele se integra ao DNA do hospedeiro. E, uma vez que faz isso, fica praticamente impossível tira-lo de lá”, disse-me Gallo.

    O truque operado pelos retrovírus é ainda mais sofisticado do que essa afirmação pode sugerir. Ao contrário de todos os seres vivos (sim, a controvérsia ainda não foi resolvida, mas a maioria dos cientistas opina que os vírus NÃO estão vivos), os retrovírus não possuem DNA. Seu material genético é formado por outra sigla famosa, o RNA. Essa molécula-irmã do DNA é diferente, entre outras coisas, por apresentar uma cadeia química única, em vez da famosa dupla hélice ou escada torcida de sua “parenta” mais famosa.

    Os retrovírus são provavelmente o ápice do parasitismo: não fazem quase nada sozinhos, mas são mestres em escravizar as células vivas para realizarem seu serviço sujo. Com a ajuda de uma molécula especial conhecida como transcriptase reversa, eles forçam a célula invadida a transformar o RNA que carregam em DNA (uma “transcrição reversa”, já que o normal é que o DNA sirva de molde para o RNA); depois, o DNA do vírus é contrabandeado para dentro do genoma do hospedeiro.

    E voilà: agora é a célula seqüestrada a responsável por fabricar mais retrovírus, que invadem mais células e integram seu material genético a mais cópias do genoma... bom, você já deve estar imaginando no que isso vai dar. É mais ou menos isso o que o vírus da Aids faz.

    Alguns retrovírus são tão agressivos que, feito garimpeiros gananciosos demais, esgotam sua mina de ouro muito cedo. O resultado é a morte do hospedeiro antes que o parasita consiga saltar para outro “veio”. Outros realizam essa transferência com sucesso. E, vez por outra, um retrovírus pode se integrar ao DNA de uma célula germinativa, como os óvulos e os espermatozóides que produzimos para gerar bebês. O resultado de uma fecundação em que um dos componentes sofreu a “integração forçada” de um retrovírus é o surgimento de um parasita genético hereditário, passado de pai para filho ao longo de gerações.

    Invasores mancos
    Acontece, contudo, que a transmissão dos retrovírus para a prole tende a obedecer as mesmas regras do que se vê entre hospedeiros não-aparentados. Isso significa que a agressividade dos vírus nem sempre é uma estratégia esperta: talvez valha a pena (de forma inconsciente, é claro; partículas microscópicas não fazem análise de risco) ficar quietinho e deixar o hospedeiro viver e se multiplicar, simplesmente pegando carona nele.

    Por outro lado, o processo de cópia do DNA não está isento de erros. Se, por acaso, a replicação da molécula de DNA apresentar um desses erros bem em cima do “código” do retrovírus, ele pode deixar de ser funcional. Mal comparando, seria como uma frase que faz sentido, como:

    “A aranha arranha o jarro”,

    fosse mal digitada e virasse:

    “Arnha ranh jrro”.

    Como as máquinas celulares de leitura do DNA não sabem inferir sentidos pelo contexto, a “frase” bioquímica virou, para todos os efeitos, um blábláblá ininteligível. Com isso, as instruções para produzir o vírus funcional se perdem e seu DNA se torna um prisioneiro do genoma que invadiu – como uma bala alojada num osso, digamos.

    Os biólogos moleculares, no entanto, estão criando técnicas cada vez mais apurados para inferir a existência desses erros de cópia. Também conseguem comparar o “texto truncado” do DNA com o de vírus ativos, de forma que é possível reconhecer o parentesco de uma seqüência do nosso genoma com o de um dos parasitas. Foi assim, comparando os “textos truncados” presentes em várias pessoas, que Thierry Heidmann conseguiu fazer o vírus Fênix ressurgir das cinzas.

    Aos poucos, outros pesquisadores estão repetindo a façanha, e os resultados poderão ser de grande utilidade médica no futuro. Achava-se, por exemplo, que o vírus HIV não era capaz de atingir as células germinativas e se integrar a elas, mas um parente próximo do vilão fez exatamente isso numa espécie de coelho.

    Por outro lado, cientistas flagraram um retrovírus endógeno de macacos que, por motivos ainda não muito claros, parece conferir proteção contra os sintomas causados pelo vírus da Aids – os chimpanzés podem ser infectados pelo HIV, mas não ficam doentes. Curiosamente, nós estamos protegidos do retrovírus endógeno dos símios – é como se o organismo pudesse fazer uma coisa OU outra, mas não as duas.

    Mestres da evolução
    Entender essas danças e contradanças delicadas entre parasitas e hospedeiros é a melhor maneira de achar os pontos fracos dos retrovírus. Mas, como este colunista é um fanático por evolução, acho que vocês me desculparão se eu disser que as implicações mais interessantes desse tipo de trabalho é passar a ver os vírus como arquitetos negligenciados da nossa história evolutiva.

    Um exemplo que eu só posso descrever como maluco é a placenta – a estrutura que permite que a maioria dos mamíferos passe por uma longa e protegida gestação no interior de suas mães. Acontece que, para evitar que o embrião seja rejeitado como um corpo estranho, é preciso diminuir com precisão cirúrgica a atividade do sistema de defesa do organismo materno na placenta, que é justamente a interface entre o bebê e a mãe. Quem faz esse serviço? Moléculas produzidas por retrovírus endógenos, ora. Ou seja: sem eles, talvez ainda estivéssemos botando ovos, como os ornitorrincos.

    Outros supostos “parasitas” do genoma, os retrotransposons, também estão se revelando atores importantes na evolução. Os retrotransposons também parecem ter origem viral, mas ainda são capazes de saltar de um ponto a outro do DNA, usando a boa e velha transcriptase reversa para isso. Conforme me contou o biólogo brasileiro Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, alguns retrotransposons estão maravilhosamente “conservados” – ou seja, sem alterações em sua seqüência de DNA – ao longo de dezenas de milhões de anos, aparecendo em todos os mamíferos.

    A evolução normalmente só conserva dessa maneira trechos de DNA que têm funções importantes para o organismo. E, de fato, conta Nóbrega, muitos desses retrotransposons “saltaram” para regiões reguladores de genes – áreas que determinam como e quando um determinado gene é “ativado”, por exemplo. O pesquisador aposta que, ao saltar para novas regiões reguladoras, eles podem ter desencadeado mudanças importantes para a evolução das várias linhagens de mamíferos.

    Invertendo Augusto dos Anjos, será que “a mão que apedreja é a mesma que afaga”? Teríamos de agradecer à insídia dos retrovírus por ter nos dado novas oportunidades evolutivas? É de se pensar.

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