Sexo! Sangue! Morte!
Tem gente que faz as coisas mais absurdas para melhorar a performance sexual, mas acho que dá para dizer, com razoável grau de confiança, que poucas pessoas encarariam a técnica preferida pelas fêmeas de louva-a-deus. Bem no meio da cópula, elas costumam arrancar a cabeça do macho e, maravilha das maravilhas, ele melhora seu desempenho num piscar de olhos. Satisfeita, a fêmea espera que o parceiro guilhotinado termine de realizar seus espasmos do amor e devora o que restou dele. Normalmente, sobram só as asas. (Confira um vídeo com esse romântico processo
clicando aqui.)
Aposto que seu estado de espírito foi parar naquele lugar bizarro entre o nojo profundo e a completa fascinação, intrépido leitor. Gostaria de acrescentar que os louva-a-deus não são exatamente uma exceção. O canibalismo sexual é uma prática de grande penetração (ui!) entre os invertebrados, abrangendo criaturas como aranhas, percevejos e até moluscos.
Com um quadro tão variado de espécies em jogo, é de se esperar que cada uma delas tenha adotado esse negócio de sedução fatal por motivos diferentes. É o que os biólogos estão descobrindo, ao desencavar casos nos quais o macho é, acredite se quiser, uma vítima consciente dos instintos mais baixos (em todos os sentidos) de sua parceira, e outros nos quais ele até dá o melhor de si para escapar da conjugação carnal com vida, mas nem sempre tem sucesso. Curiosidade à parte, essas situações ajudam a ilustrar os conflitos de interesse bizarros que podem surgir num mundo dominado pela seleção natural.
Quem tiver mais filhos ganhaEspero que você não se incomode com um pouco de teoria antes do prato principal. Mas, antes de mais nada, é importante entender que a equação “seleção natural = luta pela sobrevivência” é uma meia-verdade. Um cachorro castrado tem uma expectativa de vida muito melhor que a de qualquer lobo selvagem, mas levou cartão vermelho no jogo darwinista, porque
não é mais capaz de se reproduzir.
É a reprodução diferenciada que responde à seleção natural, pois os bons reprodutores transmitem suas características inovadoras às gerações seguintes e, se tais traços ajudarem seus novos portadores a também se reproduzir, tais características acabarão presentes na população toda no futuro distante. Então, ganham quem tiver mais filhos, e não quem ficar vivo, para resumir tudo numa frase.
Não é difícil ver que essa máxima da seleção natural darwinista pode levar um organismo a fazer coisas que não parecem ser do seu interesse caso tais comportamentos aparentemente kamikazes lhe garantam uma chance maior de se reproduzir. (Insira aqui seus paralelos preferidos com carros velozes, abuso de substâncias proibidas ou brigas de rua.) E isso nos leva de volta aos invertebrados devorados entre quatro paredes.
O canibalismo sexual, se levarmos a visão descrita acima em conta, pode ser simplesmente adaptativo. Dá para imaginar o macho se oferecendo voluntariamente em oblação, já que isso poderia garantir que a fêmea não perturbe o ato sexual e receba a totalidade de sua carga espermática. Melhor ainda, o corpo do parceiro, uma refeição inegavelmente nutritiva, ajudaria a aumentar as probabilidades de que os filhotes gerados por ele nasçam saudáveis. A derrota do nosso galã invertebrado seria, portanto, apenas aparente.
Também é possível fazer algumas predições sobre as circunstâncias nas quais o canibalismo sexual pode acontecer. Ele quase certamente acontecerá com fêmeas devorando machos, e não o contrário – afinal de contas, o macho engoliria os próprios filhotes não-nascidos, o que seria contraproducente. (O único caso de canibalismo sexual “na contramão” que eu conheço, aliás, vem da mitologia grega. Zeus, o rei dos deuses, engoliu sua amante Métis, que estava grávida. No fim das contas, a filha do casal, Atena, nasceu da cabeça do deus.) Além disso, é de se esperar que o canibalismo sexual seja fruto de uma diferença de tamanho entre os sexos que transformou as fêmeas em grandalhonas e os machos, em tampinhas.
Valentes ou fujõesSeja lá qual for a motivação da prática não-ortodoxa entre os louva-a-deus, o certo é que ela é disseminada. Estimativas citadas por William Brown, biólogo da Universidade do Estado de Nova York, sugerem que 63% da dieta das fêmeas do bicho é composta por... machos. Não é exagero dizer que, se isso for verdade, eles são literalmente o arroz-com-feijão das parceiras.
Brown e seus colegas, no entanto, queriam saber com precisão se os machos de louva-a-deus simplesmente se rendem a esse triste destino. Fizeram o teste óbvio: puseram um grupo de machos dentro de gaiolas com fêmeas famintas e outros junto com parceiras que haviam enchido a pança com carpaccio de grilo.
O comportamento dos machos foi bem mais cuidadoso com as fêmeas famintas do que com as fêmeas saciadas. Eles usavam uma série de táticas para minimizar seu risco, como pular sobre as fêmeas com fome de mais longe (evitando que elas o agarrassem durante a aproximação, por exemplo) e demorando mais para sair de cima delas após o ato sexual. Não que isso fosse uma garantia absoluta, já que, conforme descrito no começo desta coluna, algumas fêmeas dominaram a técnica de arrancar a cabeça do parceiro no meio do “durante”, e não no antes ou no depois.
No entanto, parece que os machos kamikazes realmente existem, ao menos no caso das aranhas-australianas-de-dorso-vermelho. Como fica claro na fotografia abaixo, o macho (em cima) é ridiculamente nanico perto da amada. Pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, observaram em detalhes o que acontece durante o acasalamento, e descobriram que o macho literalmente se joga nas mandíbulas da fêmea depois de conseguir penetrar a parceira.

Pior ainda: os machos que são adeptos da prática e acabam canibalizados são pais com duas vezes mais freqüência que os machos que não são comidos. A explicação é simples: enquanto a fêmea vai comendo o parceiro, ele tem mais tempo para inserir em seu receptor de esperma uma espécie de “rolha” (cá entre nós, eu prefiro o termo “cinto de castidade”). Isso impede que novos machos copulem com ela, tornando o Don Juan defunto um campeão na corrida pelo maior número possível de filhos.
A adaptação do bicho para esse ritual bizarro é tão precisa que, antes de entrar em cena, ele desenvolve um abdômen recolhido para dentro – como se ele tivesse colocado uma cinta apertada, digamos. Os pesquisadores de Toronto acham que se trata de uma proteção que atrasa a morte do macho, protegendo seus órgãos vitais e ajudando-o a ganhar tempo para colocar o “cinto de castidade” na parceira.
Ainda resta saber o que controla essa variedade de estratégias. Talvez os machos totalmente kamikazes pertençam a espécies em que uma única cópula bem-sucedida significa o passaporte para o sucesso reprodutivo – daí sua concentração numa única tentativa decisiva. E será que uma fêmea de louva-a-deus consegue “fingir” estar interessada (produzindo feromônios sexuais, por exemplo) para atrair machos que ela deseja como comida, e não como parceiros? Dúvidas à parte, fica um pouco mais fácil entender por que tantas criaturas são tão obcecadas por sexo.