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Visões da Vida

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    O genoma da Bíblia

    Para começo de conversa, gostaria de deixar de lado qualquer reivindicação de originalidade. Não há nada de novo em comparar o texto da Bíblia a uma coisa viva, como sugere o “genoma” no título desta coluna. Duas das parábolas mais famosas de Jesus, a do semeador e a do joio e do trigo, já apresentavam esse paralelo. (A do semeador, aliás, prefigura involuntariamente a eterna dicotomia, ou interação, entre genes e ambiente que caracteriza a biologia. Embora a semente – a palavra divina – seja sempre a mesma, ela depende do tipo de solo em que cai – espinhoso, pedregoso ou fértil – para produzir fruto.)

    A comparação que estou tentando fazer, porém, é um pouco menos convencional. Ela se inspira no campo emergente da memética – uma visão relativamente recente sobre a história da cultura humana, que tenta refletir sobre o desenvolvimento das idéias levando em conta sua semelhança de mecanismo com a evolução da vida. Se o paralelo valer, em vez de genes de DNA, teríamos “memes” de cultura, que são modificados e transmitidos de indivíduo para indivíduo e de geração para geração.

    Sendo um pouco menos abstrato: o raciocínio dos defensores da memética segue a linha de que não precisamos de seres vivos “tradicionais”, feitos de carne, osso e aminoácidos, para que a evolução à la Darwin – ou seja, principalmente a seleção natural, numa forma ou outra – aconteça. Na verdade, segundo eles, só precisamos de duas coisas: descendência com modificação (ou seja, qualquer “coisa” que gere, ou induza a geração, de “coisas-filhas” com alguma chance de serem ligeiramente diferentes da “coisa-mãe”); e replicação, ou reprodução, diferencial (traduzindo: algum mecanismo que favoreça um número maior de cópias de uma das “coisas-filhas” e suas “descendentes”, em detrimento de todas as outras).

    Pois muito bem: qualquer análise desapaixonada mostra que o texto da Bíblia é um campeão nesses quesitos, principalmente quando se pensa em replicação diferencial – afinal, estamos falando do livro mais copiado, impresso, lido e comentado da história da humanidade. Nesse ponto, ele rivaliza com outro “texto” vitorioso no campeonato da seleção natural, o genoma da nossa espécie (atualmente chegando perto de 7 bilhões de cópias “impressas”). Ambos, se vistos com o devido cuidado, revelam as marcas heterogêneas de sua história: cuidado extremo na reprodução “letra por letra”, o qual convive, paradoxalmente, com regiões estranhamente fossilizadas, não-funcionais, que ainda podem, mesmo assim, ser “lidas.

    Antes de ir adiante nessa comparação, um aviso aos navegantes. Este colunista não tem nenhuma agenda oculta de ateu destruidor da fé. Pelo contrário: o presente escriba é um católico praticante que não tem nenhum problema em aceitar as reivindicações de inspiração divina que o texto bíblico fez ao longo dos séculos. Além disso, embora minha inspiração aqui seja a memética, nem preciso dizer – mas digo assim mesmo – que não concordo com o rótulo de “vírus da mente” que muitos memeticistas tentam colar na religião.

    No entanto, voltando à parábola do semeador, se a semente é a palavra divina, o solo é a mente e a cultura humanas. Assim, no exato momento em que interage com essas variáveis terrenas, o Verbo (como diria o evangelista João) inevitavelmente é transformado por elas, moldado por suas vicissitudes biológicas e históricas. Se ele quer agir “no mundo”, esse é o preço que ele paga. (Fim da digressão. Se ainda assim você ficar me chamando de ateu e/ou apóstata nos comentários, das duas uma: ou não se deu ao trabalho de ir além do quinto parágrafo do texto, ou não sabe ler mesmo. Beleza?)

    DNA-lixo, genes duplicados
    Antes que alguém me corrija, é claro que a comparação entre a Bíblia e um ser vivo ou espécie “selvagem” é imperfeita. Afinal, as idéias da Sagrada Escritura foram cuidadosamente pensadas e lapidadas ao longo dos séculos por gerações de antigos israelitas e, no último século de sua composição, por cristãos também. Assim, o paralelo mais exato englobaria o texto bíblico e as espécies domésticas de animais e plantas, arduamente transformadas pela seleção consciente humana durante milênios. No caso da Bíblia, esse trabalho foi feito por autênticos “engenheiros meméticos” (e não genéticos). Mas o DNA “selvagem” original ainda transparece, tal como o lobo que ainda existe no fundo de todo cãozinho.

    Quando uso essas metáforas, refiro-me especificamente aos elementos pagãos que ainda estão presentes no texto monoteísta da Bíblia. Os especialistas na evolução do texto bíblico concordam que muitos dos elementos que são, para nós, característicos da narrativa bíblica – como a história da criação do mundo e os eventos do Dilúvio – surgem, de forma surpreendentemente parecida, em textos bem mais antigos, em geral encontrados na Mesopotâmia por volta do ano 2.000 a.C.

    Exemplos clássicos: no épico babilônico de Gilgamesh, um mortal também é instruído a construir uma arca e salvar-se da inundação que vai afogar toda a humanidade; no Enuma Elis, outro texto babilônico, vemos a criação da Terra em termos muito semelhantes – a separação das águas, o estabelecimento do firmamento etc. – aos descritos no Gênesis.

    A grande “mutação” induzida pelos editores finais do texto bíblico é a transformação desses elementos mitológicos (em que vários deuses fazem sexo, dão à luz, lutam pela supremacia, triunfam e são mortos) numa visão de mundo radicalmente diferente, em que um único Deus – Yahweh, ou Javé, no nosso idioma – é, desde o princípio, o senhor único do Cosmo. Mesmo assim, há vestígios de mitologia salpicados pelo texto bíblico.

    Se no Gênesis a criação da Terra acontece sem esforço algum, com a mera palavra divina, em diversos salmos o autor bíblico descreve o combate de Deus contra monstros primordiais do oceano – os mesmos monstros que, nas mitologias pagãs do Oriente Próximo, precisaram ser derrotados para que a criação começasse. Da mesma forma, o “abismo” primordial do Gênesis, sobre o qual o espírito de Deus paira antes da criação, parece ser um nome próprio, em hebraico – Tehom.

    Ora, etimologicamente trata-se da mesmíssima palavra que Tiamat, uma “dragoa” da mitologia babilônica que representa o caos primevo e é derrotada pelos deuses “bons” num feroz combate. No Gênesis simplesmente não há batalha, mas “Tiamat”, feito um fóssil, continua lá. É como se houvesse uma espécie de DNA-lixo – as regiões do genoma que talvez tenham tido função no passado remoto, mas que hoje apenas ocupam espaço – no interior do texto bíblico.

    Da mesma maneira – talvez pelo pouco contato das pessoas com as Escrituras originais –, pouca gente percebe que existem duas narrativas da criação no Gênesis, assim como duas narrativas do Dilúvio. Pode conferir: do começo do primeiro livro da Bíblia ao quarto versículo do segundo capítulo, a história caminha de um jeito; depois, muda radicalmente. Na primeira, Deus cria o homem e a mulher apenas com sua palavra; na segunda, usa o barro da terra para formar o homem. Não há como conciliar as duas: na primeira narrativa, a criação do homem vem por último, no sexto dia, enquanto na segunda narrativa o homem é criado antes das plantas (feitas por Deus no terceiro dia, segundo o primeiro texto).

    Além de derrubar por completo a idéia de que o texto bíblico pode ser considerado verdadeiro ao pé da letra, esses dados revelam um novo paralelo entre o Livro dos Livros e o Livro da Vida no nosso genoma: genes duplicados. O fato é que, por razões históricas, nosso DNA está repleto de trechos variados os quais, originalmente, eram um só. Ao longo do tempo, erros na cópia do material genético levaram à multiplicação de genes “descendentes” de uma cópia original, os quais poderiam ficar inativos ou servir a funções biológicas diferentes ou complementares. Mais ou menos o que aconteceu, diga-se de passagem, com as “dobradinhas” narrativas do Gênesis, conservadas pelo editor bíblico lado a lado por razões teológicas ou rituais.

    Seleção natural
    Essas idiossincrasias são indícios intrigantes de engenharia memética, mas a grande questão a ser respondida tem a ver com seleção natural – ou artificial, como queiram. A pergunta é: o texto bíblico precisou mudar para sobreviver? Teria sofrido alterações significativas, no todo ou em parte, para que seu potencial de replicação nos rolos de papiro e códices de pergaminho continuasse? As incongruências que discutimos acima indicam que sim. Afinal, são exemplos de como os contextos pagãos foram transformados pelos engenheiros meméticos monoteístas.

    No entanto, mesmo dentro da grande tradição monoteísta de adoração a Javé que perpassa a Bíblia hebraica (ou Antigo Testamento, para os cristãos), vemos o texto bíblico sendo reinterpretado e adaptado para novos “ambientes” históricos e culturais. A maior de todas essas mutações tem a ver com a grande tragédia da história israelita – a destruição do Templo de Jerusalém pelos invasores babilônicos no século VI a.C. Em geral, no Oriente Próximo daquela época, a população derrotada adotava o deus do vencedor e abandonava o seu. Se fosse deportada para outra terra – coisa que aconteceu com a elite dos dois reinos israelitas, o de Israel no norte e o de Judá no sul –, as chances de adotar o deus da nova terra eram ainda maiores.

    Mas não foi o que aconteceu. É claro que muitos dos exilados de Israel e Judá foram assimilados pelos conquistadores, mas alguns viraram a mesa declarando que a derrota não fora uma derrota de Javé, mas uma punição pela falta de fidelidade de seu povo. E outros desses visionários foram mais longe ainda, postulando uma restauração futura e gloriosa dos israelitas em sua terra. É graças a essa mutação memética poderosa que, enquanto nenhuma pessoa viva hoje adora Baal ou Marduk (dois deuses muito populares do antigo Oriente Próximo), 3 bilhões de seres humanos ainda acreditam em alguma versão do Javé israelita.

    A Bíblia que temos nas mãos hoje é fruto dessa reviravolta genial produzida pelos israelitas exilados. No conjunto, o pacote se tornou tão imbatível que assumiu sua feição “completa”, terminada, seja para judeus, seja para cristãos. (Aliás, o último livro da Bíblia cristã, o Apocalipse, exemplifica mais uma característica do DNA, a proteção contra erros indesejados de cópia, ao avisar: “Se alguém acrescentar algo, Deus acrescentará sobre ele as pragas escritas neste livro. E se alguém tirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a parte da árvore da vida”.)

    Se conhecer essa história pode afetar a ilusão de que o texto bíblico é e sempre foi imutável, o outro lado da moeda é perceber que, ao brotar de traços que se assemelham à nossa própria biologia, ele nunca deixou de ser relevante para a vida humana. Sua preocupação nunca foi o passado remoto ou o futuro distante: pelo contrário, ele sempre falou, e talvez continue a falar, do aqui e do agora.

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Reinaldo José Lopes

Bem-vindos a uma viagem pelos quase 4 bilhões de anos da história da vida na Terra. Este espaço é dedicado a explorar como a evolução forjou e ainda forja a variedade estonteante dos seres vivos, da mais modesta bactéria à complicada e fascinante linhagem humana. Meu nome é Reinaldo José Lopes, sou repórter da editoria de Ciência e Saúde do G1, e convido todos vocês a participarem dessa jornada imprevisível e maravilhosa.






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